terça-feira, 23 de junho de 2015

Teoria do Beijo

O beijo é um dos gestos mais comuns de interacção do ser humano desde há séculos, senão milénios. Compreende o movimento de uma série de músculos à volta dos lábios seguido de uma espécie de sucção ao respectivo alvo. Trata-se de uma prática exercida diariamente por quase toda a gente e que se desmembra em vários contextos e objectivos. Se pensarmos em contabilizar a quantidade de vezes que beijamos num dia, numa semana, num mês, num ano... a vida inteira, percebemos que talvez já tenhamos dado mais beijos do que apertos de mão. Existe aquela distinção cultural entre o ocidente e a Europa, em que nesta o beijo representa um cumprimento informal. Beijamos os nossos familiares, amigos, estranhos, dependendo do contexto e muitas vezes da vontade.

Se repararmos bem, num sentido exagerado, passamos o dia a beijar-nos a nós próprios, quando passamos a mão pela boca, ou a beijar toda a porcaria que vemos à frente, como uma toalha onde nos limpamos. Tu vê lá bem onde é que já meteste a boca! Na peça de roupa usada, na fotografia de alguém querido, na escultura de devoção, no pão, no telemóvel topo de gama que acabou de cair ao chão e se desmantelou (na esperança que ele volte à vida), na caneta enquanto que lês um artigo, na garrafa de água, no cheque milionário que acabou de chegar, no chão que o teu ídolo pisa, no solo da terra em que nasceste, no ecrã do computador quando finalmente consegues colocar os parágrafos do texto da maneira que idealizavas, na página aleatória do livro novo enquanto que o cheiras, na porta com que acabaste de levar... Se considerarmos cada uma destas acções como um "beijinho", então somos uns seres altamente beijoqueiros!

De facto, quando falamos num beijo (aquele beijo!), na realidade estamos a referir-nos ao beijo de boca. Ou melhor, ao beijo de bocas. Dois pares de lábios que se tocam. Do simples "xôxo" ao "linguado", um leque de variados sabores, texturas, tempos de acção, cargas de adrenalina, bateres de coração empolgantes, afrontamentos de calor, etc. Os beijos são actos determinantes nas relações amorosas, emocionais e sexuais. Nas relações amorosas, são uma espécie de ponto a picar. A aproximação física entre os enamorados obriga a "picar o ponto" logo no momento em que os olhares se fitam e antes que estes se virem para o lado. Serve também como sinal de despedida, para deixar a saudade até se iniciar novo turno. Nos casais mais frescos, a máquina tem tendência a não validar à primeira, pelo que repetem várias vezes e com maior insistência para que fique bem registado, tal como aquelas pessoas que entram no elevador e carregam muitas vezes no mesmo botão para que o elevador chegue talvez mais depressa ao destino. Nos casais que estão afastados há algum tempo, a máquina demora mais tempo a reconhecer os dados, pelo que têm de permanecer imóveis e de lábios juntos até ser conferida a credenciação. Nas relações emocionais, os beijos tendem a ser mais desprovidos, marcando mais um simbolismo do que um sentimento. Nas relações sexuais, são como que um farol; uma notificação "eu ainda estou aqui". Marcam o início da prova, vão ressurgindo quando as posições assim o permitem, e apontam também o culminar, podendo ou não acompanhar o climax da situação. Na maior parte dos casos, até a enfatizam.

Em cada situação, existem variados tipos de beijos. O "beijo inocente" é aquele que é dado com muita vergonha e timidez à mistura; uma das partes dá o passo e ri-se como que um ratinho depois de tomar ecstasy. O "beijo amargo" é aquele dado depois de se beber café; quente, mas de um lote meio queimado. Não é dos melhores. O "beijo doce" costuma vir acompanhado com uma pastilha elástica, normalmente com sabor a morango ou melão; incómoda, que salta de boca em boca, até alguém se decidir a deitá-la fora. Também é uma falta de respeito mascar uma pastilha elástica quando se beija; é preferível haver o "corte" antes de se começar. O "beijo do Ártico" pode também vir acompanhado de pastilha elástica com sabor a mentol, mas é mais comum após uma lavagem com pasta de dentes, da qual podem sobrar alguns restos para manter o... ambiente. O "beijo doloroso", quando a outra parte insiste em nos chupar o lábio inferior com muita força, puxando-o e provocando uma dor incómoda. O "beijo alcoólico", em que apanhamos uma bebedeira só de levar com o bafo a whisky ou vinho que vem do outro lado. O "beijo múltiplo", em que ao invés de um único beijo duradouro e envolvente, são dados mini-beijos sem permissão de língua numa espécie de toca-e-foge. O "beijo católico", em que se chama por uma entidade superior ou se reza por ela entre dentes. O "beijo de alta definição", em que se ouve todos os sons da "natureza oral", desde os gemidos de prazer aos ruídos provocados pela saliva a ser sugada, quase que absorvendo as entranhas do parceiro. O "beijo gastronómico", no qual se dá a provar restos de comida que ficaram entre os dentes. O "beijo doente", no qual se adiciona muco proveniente das narinas, numa época de constipações e resfriados. O "beijo da Bela Adormecida", em que uma das partes simplesmente não se mexe. O "beijo canibal", em que quase nos abocanham a cara toda. O "beijo de reanimação", em que nos sopram uma lufada de ar para dentro da boca, como se estivéssemos a morrer. O "beijo matinal", com o típico "bafo da fome" a castigar o amor. O "beijo indesejado", quando a boca acerta no nariz. O "beijo estrábico", em que as pessoas insistem em permanecer com os olhos abertos. O "beijo do acrobata", em que, quando os lábios se afastam, permanecem ligados por um fio de baba, suficientemente espesso para sustentar um elefante apoiado numa pata, erguendo um chapéu de chuva aberto. O "beijo de cinema", em que as bocas isolam todo o seu interior, não permitindo entrada ou saída de ar. O "beijo sonolento", normalmente interrompido por um bocejo. O "beijo felino", em que nos lambem a cara, como se de um gato se tratasse. O "beijo da sonda", em que uma língua nos invade e percorre cada milímetro do interior da boca, contando os dentes um a um. O "beijo do vampiro", em que nos mordem ou trincam com força. O "beijo duro", em que os dentes insistem em bater. O "beijo mole", em que se retiram os dentes antes de beijar. Enfim... uma panóplia infindável de beijos.

São poucas as pessoas que sabem verdadeiramente beijar. Não têm culpa, embora. Precisam de alguém que as ensine. E nem sempre estão preparadas para beijar ou ser beijadas. A pressão num determinado momento pode comprometer a "performance" de um beijo, pois nem sempre são esperados. Os beijos-surpresa deveriam ser os mais românticos e inesquecíveis. Mas são quase sempre esses interrompidos por um espirro, uma tosse convulsa, a aproximação de outras pessoas, o nervosismo latente. É preciso alguma prática e uma devoção sincera para se saber proporcionar aquele calor e aquele pequeno prazer pouco ou muito duradouro. O facto de um beijo ser bom ou mau pode determinar o início, a continuação e/ou o fim de um relacionamento. É a verdade.

Definitivamente... um beijo envolve muito mais do que lábios e língua. Todo o corpo se movimenta e o exponencial de prazer aumenta a cada segundo, pois tal acto faz percorrer a adrenalina e dá um grau de satisfação equivalente ao prazer de comer, dormir ou amar. E quando é com amor, maior é a intensidade. Mas nem todos os beijos têm a ver com o amor. São, afinal, uma necessidade.

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