segunda-feira, 19 de maio de 2014

Teoria dos Fantasmas

Acontece a todos e, na maior parte dos casos, é impossível evitar: viver com os fantasmas do passado. E quando falo em passado, pode até ser um muito presente. Mas a partir de quando é que consideramos alguém como um fantasma? Esta expressão serve para caracterizar uma pessoa que não queremos ver, de quem temos "medo", que nos faz parar para pensar. Os comuns fantasmas são almas de corpos que padeceram e que não estão mais presentes fisicamente. A mitologia sobre estas entidades é variada e tem sido nos últimos anos muito utilizada para identificar situações não resolvidas, ou seja, eles aparecem para nos ajudar a resolver um enigma ou para nos lembrar que continuam do nosso lado de uma forma espiritual ou ainda para nos dizer quem foi a pessoa que os tornou um fantasma. Já não são vistos como coisas que estão atrás de uma porta ou que saem das paredes para nos assustar. Aliás, a conclusão de qualquer das histórias actuais é de que a intenção do fantasma em nos aparecer é tudo menos assustar. Nós é que temos a mania de dar um gritinho diabólico e correr porta fora porque é assim que se faz nos filmes!

Mas esses fantasmas não existem senão no nosso subconsciente. São uma mera ideia, uma personificação de alguém que já não existe. É-lhes dada "vida" por sentirmos saudades ou apenas por pensarmos na forma de pensar que essa pessoa tinha em vida. Não é desses fantasmas que pretendo falar. Quero sublinhar e contextualizar os fantasmas das pessoas que ainda estão vivas. Que andam por aí. Essas pessoas que não queremos ver. Mas que gostaríamos, uma vez ou outra, de saber como estão. Essas pessoas de quem temos "medo". De quem temos medo de reatar sentimentos. Essas pessoas que nos fazem parar para pensar. Para pensar nos "se"s e nos "porque"s. Para que isto aconteça, é necessário que exista um certo grau de importância. Então, sendo assim, o que é preciso para que uma pessoa atinja o mérito de ser um fantasma do passado? Muito simples: basta ter criado um impacto suficiente para se caracterizar com uma importância suficiente para nos lembrarmos dela sempre que nos sintamos insuficientes com o nosso próprio pensamento. Todas essas pessoas (porque pode ser mais do que uma) tiveram um momento connosco, um período em que fizeram e aconteceram coisas que, hoje, ganharam um significado. E que também definem uma parte daquilo que somos.

Só com o passar do tempo é que percebemos o quão importante uma pessoa foi (ou é) para nós. E isso acontece quando realizamos a quantidade de vezes que essa pessoa nos aparece no pensamento. Posso dizer que há pessoas sobre as quais penso... todos os dias! Não estou a exagerar. É a sério. Não há um único dia que passe sem eu pensar em algumas pessoas. Nem que seja por uns micro-segundos. Mas acontece, sim. Isto revela o quão forte foi a história, o quão importante essa pessoa é e o quão infinito é o que sentimos por ela. Sim, é para sempre. Não, não conseguimos apagar da memória. Há pessoas que vêm para ficar, mesmo que não o queiramos. Temos apenas de aprender a viver com esses pensamentos. Mas garanto que são sempre mínimos. Numa ou noutra altura poderão ter direito a tempo de antena mais prolongado, consoante os acontecimentos actuais. Mas isso acontece quando se fazem comparações, quando se visitam sítios, quando se observam pormenores identificáveis ou, o mais natural, quando se sente saudade. Saudade dos bons tempos, não dos maus.

Como é que lidamos, afinal, com a existência destes fantasmas? Ainda que só em pensamento, corremos sempre o risco de apanharmos com um espectro destes à nossa frente. Ou de continuamente sermos notificados sobre a sua existência. A sério? Já não chega só o que nos vai na cabeça? Pois é. A partir do momento em que aquela pessoa começa a figurar "demasiadas vezes" na nossa mente, seja por que motivo for, é automaticamente definida como espectro. Fantasma do passado. Mas embora do passado, será mais presente do que pensamos. Tudo porque assim o queremos. Porque deixámos que assim fosse. Depois há a maneira como vemos esse fantasma, diariamente. E tem dias. Umas vezes são as piores pessoas que passaram pela nossa vida e temos todos os motivos para esperar que se tornem num verdadeiro fantasma. Outras vezes são apenas pessoas que nos fizeram bem em determinado momento. E focamo-nos nesses momentos: as boas memórias.

Definitivamente... saber viver com os fantasmas do passado faz parte do dia-a-dia, para todo o sempre; e em cada dia a maneira de os ver é diferente, e será sempre diferente. Até que "voltem à vida". Ou não. Se quisermos.

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