quinta-feira, 20 de março de 2014

Teoria da Esfrega

"Ó Povo, que lavas no rio", diziam (e ainda dizem) alguns fadistas por esse país fora. Hábito esse que deixou de ser posto em prática. Qual seria o significado de lavar alguma coisa no rio? Provavelmente porque a água tudo lava, à excepção das más línguas, e o rio teria a função de levar para longe toda a sujidade. Mandar embora o que era mau.

Com o passar dos anos, desenvolveu-se a expressão "lavar roupa suja", que determina o acto de discutir factos potencialmente prejudiciais para o bem-estar das pessoas, por forma a estas atingirem um nível de conhecimento sobre si próprias ou sobre outras e estabelecerem critérios sobre aspectos que não querem repetidos. Basicamente, é um jogo entre duas ou mais pessoas, sendo que é vencedor quem conseguir reunir mais frases de insulto com tempo mínimo de resposta directa. O desenvolvimento tecnológico permitiu que hoje em dia esta lavagem seja na sua maioria virtual, indirecta.

Ora, lavar roupa suja (no rio) implica pegar nas peças que estão sujas, molhá-las, aplicar um detergente, esfregar, esfregar, esfregar, virar ao contrário, ensopar novamente em água, esfregar outra vez, bater aquela porcaria contra as rochas, por vezes atirar com força contra as mesmas, esfregar outra vez... mesmo que as nódoas já tenham desaparecido. Entretanto, já o rio está a fazer a sua parte e a levar as nódoas, agora invisíveis, pelo seu leito extenso e para longe. Para longe tanto do lugar onde se sujou a roupa como do lugar onde se a lavou. Não queremos ver aquelas nódoas nunca mais.

Imaginemos uma nódoa de vinho, por exemplo. É daquelas difíceis de tirar. E mesmo quando a conseguimos tirar, mais tarde volta a aparecer outra muito idêntica. Não é a mesma. Mas a pessoa que se descuidava a sujar a roupa com vinho voltou a sujá-la. E porquê? Porque tem o hábito de beber vinho. Não vou dizer se esse hábito é bom ou mau. A parte má é a de continuar a deixar entornar o vinho na roupa! O cansaço que é estar sempre a lavar a "mesma" nódoa vezes sem conta. E aquela que nunca chegou a sair como deve ser? Com o passar do tempo, já nem damos importância. Já faz parte da peça de roupa. É ténue, quase não se vê. Mas se esticarmos a peça e a levantarmos para a observarmos no seu esplendor, conseguimos reparar na diferença nas cores. Quase que desapareceu, mas ainda lá está. E, muitas vezes, só a consegue ver quem sabe de facto que ela lá esteve. E sabe a côr carregada que tinha antes da primeira lavagem. Lembra-se da cara de nojo que fez ao dar a primeira esfrega. Os lábios encarquilharam-se e formaram uma curva virada para baixo, não permitindo sequer acompanhar os cânticos próprios da lavagem no rio. Raios partam esta nódoa!

Mas nesses tempos, as nódoas eram encaradas de frente. Dar-nos-íamos a esse trabalho. Hoje são as máquinas que lavam a roupa. E mal. O povo deixou de lavar no rio. Hoje o povo lava a "outra roupa suja" pelo telemóvel, nos chats sociais. E já nem utilizam a língua para o fazer, mas sim os dedos. Numa troca desenfreada de mensagens de texto, as palavras resumem os sentimentos, a raiva, o desgosto, o perdão, substituindo o olhar, o tom de voz, as lágrimas, os sorrisos, o aconchego. E quanto mais "corda" se dá, mais extensa será a discussão. E no tempo entre respostas, essas mesmas mensagens que ficam automaticamente gravadas podem ser lidas e relidas, copiadas e coladas, acrescentadas, excertadas, até ignoradas.

Pergunto-me. Nesta situação, o que é o rio? Onde está? Onde está o rio que leva as nódoas? De onde vem a água que leva para longe aquilo que não queremos voltar a ver, ouvir ou sentir? E respondo-me. Não há, não está, não existe. Ou seja, as nódoas, essas, vão ficar. Para sempre.

Definitivamente... não há nada como a lavagem de roupa suja à moda antiga, a bater com força, esfregar, esfregar, esfregar... Que energia tão bem gasta!

1 comentário:

  1. Adorei a metáfora!

    Realmente, há nódoas que pensamos que tiramos, mas a marca fica sempre lá, e há nódoas que voltamos a meter na mesma peça de roupa...enfim...

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