quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Teoria dos Dentes

Vou transcrever para aqui um texto que vi hoje publicado. Cada letra e cada palavra estão TAL E QUAL como no texto original. Ora aqui vai:
"Pertenço ao grupo dos VENCEDORES
Na vida ha 2 tipos de pessoas: os vencedores e os outros. Pertenço ao grupo dos que conseguem tudo o que querem! Se tens uma carreira de sucesso, pertences a um nivel social alto, tens corpo definido, dentes perfeitamente brancos, podemos entendernos :)"

[Pausa para respirar...]

Ora bem!
É difícil saber por onde começar, ao analisar uma tragédia destas. Mas talvez por partes seja o melhor. Comecemos pelo slogan, em que a palavra VENCEDORES assim em maiúsculas determina que temos ali uma pessoa altamente convicta das suas capacidades. A curiosidade puxa-nos para a questão de "vencer o quê, propriamente?". E "a quem?". Depois, seguimos para a fundamentação e logo no início pensamos que a criatura escreveu à pressa e não fez uma revisão à sua apresentação, pois "há" leva um acento no "a". Mas tudo bem. Não seja por isso. Claro que concordamos se alguém disser que há dois tipos de pessoas: há uns e há outros. Mas quando esta criatura denomina uma parte como "vencedores" e a outra como "outros"... Então espera aí! Não era suposto ser o oposto, ou no mínimo uma diferença relevante? Pois o contrário de vencedores é perdedores. Por esta lógica, se um dos tipos de pessoas tem obrigatoriamente de ser o dos vencedores, então o outro tipo de pessoas tem de ser dividido em vários tipos de pessoas, pois só os "outros" é insuficiente. E nem todos os outros são perdedores. Podem ser meio vencedores, ficar em 3º lugar ou podem até nem sequer jogar ao tal jogo que a criatura parece querer jogar.

Mas temos a resolução deste dilema logo na segunda frase, embora não seja evidenciado o arrependimento sobre a primeira. Afinal a criatura não se define como estando num daqueles tipos de pessoas. Está no grupo dos que conseguem tudo o que querem... hhmmm... Confuso? Não, nem por isso. No facebook, podemos pertencer a vários grupos. Porque não na vida real? Mesmo assim, conseguir tudo o que queremos não significa que sejamos vencedores. Há coisas que conseguimos mesmo sem esforço nenhum. Lá se vai o mérito da criatura!

O interessante vem logo depois, no perfil que o destinatário deverá ter. Ora vejamos. Carreira de sucesso? Claro. Quem é que não tem uma carreira de sucesso? Pensa lá bem. Alguém te vai dizer que a sua carreira é uma tristeza? Se o ordenado entra ao fim do mês, os objectivos foram atingidos e o sucesso é garantido. Pertencer a um nível (sim, com acento no "i"!!) social alto... hhmmm... Não, acho que aqui as hipóteses ficam muito escassas. Se analisarmos a alta sociedade, é constituída maioritariamente por pessoas já com alguma idade, já casadas, e que não procuram nada nem ninguém; ou seja, não há grandes possibilidades de se cruzarem com esta criatura, seja onde for. Teríamos de nos remeter apenas aos filhos e netos dessa alta sociedade, cuja diferença para a sociedade "baixa" não é muita, uma vez que as necessidades fisiológicas são iguais, o ar que respiram é o mesmo, são todos seres humanos, etc. O que poderá mudar são os sítios que frequentam, os lares onde habitam, a localização geográfica onde predominam.

O corpo definido. Sim, toda a gente tem o corpo definido, excepto se for um menor de idade, em que o corpo ainda está por definir, ainda não está formado como deve ser, ainda há músculos, glúteos e afins para desenvolver. E mesmo quem ultrapasse a menoridade ainda tem alguns pontos a desenvolver fisicamente, na maior parte dos casos.

Dentes perfeitamente brancos. O advérbio aqui vem evidenciar que a criatura quer algo artificial, sem sombra de dúvida. E sem sombras nos dentes. Esqueceu-se de evidenciar que outrém teria de ter também todos os dentes. Arrisca-se, portanto. E finalmente termina com um dos maiores horrores da história do vocabulário português. Existem dois tipos de horrores: o grupo dos hífens a mais e o grupo da falta deles!! Assim, não podemos ENTENDER-NOS!!

Podemo-nos entender? Podemos entender-nos? Podemos entender o que é que esta criatura quer? Podemos entender o quão ignorante esta criatura é? Podemos rir de boca aberta (com ou sem dentes e brancos ou não-tão-brancos) sobre o que esta criatura diz? Podemos meter-nos à frente de um espelho, olhar-nos de alto a baixo, piscarmos o olho a nós próprios e lamber o canto da boca? Podemos ajoelhar-nos perante um Dicionário da Língua Portuguesa e rezar todas as noites para sermos o mais acertivos linguisticamente no dia seguinte? Podemos, sim! E, vá lá, não errou em metade, pois já vi alguém escrever "pode-mos"...!

A conclusão é que esta criatura precisa de não aparecer em público, não se pronunciar, não pedir ou exigir seja o que for, sem antes ter a perfeita noção das suas capacidades e incapacidades e, acima de tudo, ter a noção do meio em que vive. O nível de exigência é tal que, se analisarmos, não existe tal coisa possível de prover um nível satisfatório. E mesmo quem esteja perto, só pelo erros ortográficos, foge! Mas pela lógica da criatura (quando se trata de publicar um texto tão acertivo), então... Há dois tipos de pessoas: as que sabem escrever e as ignorantes! E a criatura está longe de vencer seja o que for, pois perde à partida, tamanha é a ignorância em não fazer uma revisão, ou não saber fazê-la. Compreendo a pressa. Mas a corrida é infrutífera. A criatura pertence, sim, ao grupo dos "LOSERS".

Definitivamente... há pessoas que deviam levar com um dicionário na boca até ficarem sem dentes, por mais brancos que sejam!!

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