segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Teoria da Infidelidade

Decidi de uma vez por todas admitir algo que tem estado escondido na minha vida, algo que tenho ocultado ao longo dos anos. Não é chocante, não é revelador, não é constrangedor. Acho que nem sequer é previsto em qualquer código de ética, lei ou norma. Faço disto um modo de vida, do qual ninguém tem de saber ou manifestar opinião. E é tão simples como isto: tenho uma amante. Sim, isso mesmo. Tenho alguém que me conquista, que me dá o que preciso quando tenho essa necessidade, que não me pede justificações, que não me manda mensagens para o telemóvel, não insiste em experimentarmos "coisas novas", faz-me exactamente o que eu quero, sai-me relativamente barata e nem perco muito tempo com ela. Chama-se água. E atenção que ela não é uma qualquer! Não é dessas oferecidas que andam para aí. Aceito-a tal como ela veio ao mundo. Tenho o prazer de a temperar da forma que eu achar melhor para mim. Tenho pensado nisto por causa do clima frio que por vezes insiste em aparecer. A água quente no Inverno é a melhor amante que podemos ter. E principalmente porque não a partilho com mais ninguém (lá de vez em quando se pode admitir um ménage à trois, mas ela é ciumenta e pode mudar a temperatura, tanto para muito fria como muito quente).


Costuma-se dizer que a água tudo lava, só não lava as más línguas. Ora eu acho que lava tudo. Tomar um bom banho de água quente é uma experiência única e muito íntima, daí que na maior parte das vezes eu demore mais do que é considerado habitual. O politicamente correcto é dar uma enxaguadela, espalhar o shampoo, mais o gel de banho pelo corpo todo, esfregar para fingir que mandamos embora as bactérias todas que voltamos a colar na pele com a roupa lavada, e já está. Em 5 minutos, o banho está tomado e estamos fresquinhos e cheirosos para podermos conviver na sociedade. Mas comigo não é bem assim. Se ela está comigo na banheira ou no chuveiro, eu não consigo ignorá-la. E tem aquela mania da sedução, o que é altamente excitante. Começa por se armar em fria, a contar-me por onde andou nas últimas horas, as conversas de canos, as filas de trânsito porque alguém não pagou uma conta, as viagens que fez pelo mundo, os trambolhões que deu nas montanhas, o surf que praticou nos rios (coisa inédita!), enfim... um rol de histórias até que comece o acto.

Lá eu lhe toco com os pés e ela começa finalmente a mostrar o seu lado mais amoroso. Decido colocá-la por cima de mim e banhar-me com o seu amor incondicional. Ela toca-me em todo o lado onde mais ninguém toca (se aplicável). E repete, se for preciso. Lembro-me daquelas massagens em que, quando acabam, desejamos só mais 2 minutos. E a comunicação é fogaz. Parece que ela me pergunta "estás a gostar? hm?", e nunca, mas nunca me vem com palavriado ridículo, nem sequer propõe mudanças de posições sem sentido, nem tem atitudes parvas e, até hoje, nunca teve o desplante de se ir embora a meio. É nessas alturas que eu penso nos milhares de pessoas que não têm ou não podem ter este pequeno prazer. Infelizmente, é uma necessidade para demasiada gente. Muito provavelmente, é este nível de pensamento que me faz perder a pica e dar por terminada a sessão. Isto e as contas no fim do mês!

Será que poderemos considerar isto uma traição? Talvez. Porque sou capaz de ignorar um ser humano por quem nutra grandes sentimentos para poder estar com esta minha amante durante uns minutos. A outra pessoa não tem de saber que eu tenho esta leviandade, mas pode participar sempre que quiser. A coisa funciona bem, até. Lá pode achar que eu estou a dar mais atenção à amante, mas duvido que faça algum comentário. Sim, porque normalmente sou eu que ponho a mão na torneira, pelo que posso tornar a amante bem fria, à minha vontade! Mas considero então como uma traição saudável. Há pessoas que até traem com as quentes e com as frias, mas essas pessoas são loucas: não conseguem contentar-se só com uma amante!

Temos, muitas vezes, a necessidade de nos exorcizarmos. Dos nossos problemas, das nossas frustrações, do nosso stress. Mas é na água que encontramos uma calma e paz de espírito inconfundíveis. Para além de ser um momento íntimo, temos aquele prazer que mais ninguém nos consegue dar. Até cantarolamos! E no fim, saímos despreocupadamente e tomamos como garantido que o vamos repetir. Há melhor amante do que esta? Até tem a paciência para ouvir os nossos pecados, acalmar-nos quando estamos nervosos ou tristes. E parece que saímos curados de todos os males e dores.

Definitivamente... há pessoas que precisam de um bom banho para lavar a alma!

1 comentário:

  1. Gostei da forma como erotizaste um "simples" duche. É que a maior parte de nós não presta atenção a estes pequenos detalhes, que fazem toda a diferença no nosso dia-a-dia, seja de manhã para começar bem, seja à noite para limpar todas as impurezas físicas e mentais do nosso corpo.

    Eu também sempre fui da opinião que a água lava tudo, menos as más línguas! Já o dizia a minha falecida avózinha.

    A água tem realmente algo de mágico e inexplicável, o que sei é que, naqueles dias em que sinto a aura mais pesada, meto-me debaixo do chuveiro a curtir uns minutos extra, e se me concentrar verdadeiramente, parece que sinto tudo o que é de mau a escorrer desde a minha cabeça até ao ralo da banheira.

    É pena que no meio disto tudo me assole um pensamento ainda pior que a conta da água: o facto dela se estar a tornar um bem cada vez mais precioso e que a qualquer momento, num futuro próximo, será mais valiosa que qualquer outro elemento à face da Terra...

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