sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Teoria da Saudade

Saudade. Aquela tal palavra da língua portuguesa que aparentemente, até hoje, não tem tradução em qualquer outra língua. Não porque o sentimento não exista noutras civilizações, mas porque simplesmente não lhe atribuíram um "nome próprio". Nós, tugas, facilmente exprimimos ou identificamos o tal sentimento. E muitas vezes até o confundimos. Ora vejamos. A saudade provém de vários sensores localizados no cérebro que activam memórias. É correcto dizer que a saudade despoleta memórias, mas será que o contrário também acontece?

Temos as memórias boas e as memórias más; mesmo até as más que passam a ser boas e as boas que passam a ser más, com o passar do tempo. Quando nos lembramos daquele amor de Verão... quase que sentimos o cheiro da maresia, recordamo-nos de um som, de uma sensação. Aos poucos começam a aparecer as personagens. E sem dúvida que é nestas que se centram as memórias. O que é uma memória senão uma lembrança por culpa de alguém? Se nos lembrarmos de um sítio, obrigatoriamente teremos de nos lembrar de quem nos levou a esse sítio ou quem nos acompanhou. Se for de uma situação caricata, de quem no-la contou ou de quem participou nela. De facto, são as pessoas que nos trazem as melhores e as piores memórias. E, no fim, são as memórias que nos fazem caracterizar as pessoas e a maneira como interagimos com elas.

Quando dizemos "tenho saudades de ir ao sítio tal" [que por acaso é errado, pois deveríamos dizer a palavra apenas no singular: saudade], na realidade temos saudade de estar com a/s pessoa/s com quem estivémos em determinado momento. Mesmo que não o admitamos ou não tenhamos essa percepção. Senão, que importância teria esse sítio? O que se fez lá foi bom? Foi um momento bem passado? Gostaríamos mesmo de lá voltar? E voltar sozinhos ou com as mesmas pessoas de então? O que será que procura o nosso cérebro quando invocamos uma memória e a "pintamos" de saudade?

Eu atribuiria um esquema para cada situação. Por exemplo, quando alguém diz que tem saudade da sua terra natal, provavelmente sente falta da família. Ou quando alguém diz que tem saudade de outra pessoa, provavelmente sente falta de algum gesto que só essa pessoa conseguia dar. Em situações diferentes, se alguém disser que tem saudades da praia e do mar, muito provavelmente sente falta de estar sozinho consigo próprio, com a água e a areia, mesmo que para isso tenha de aturar os telemóveis dos amigos a tocar músicas horríveis, levar com os gritos dos filhos dos outros, apanhar um escaldão desnecessário e comer pó o dia todo. Portanto, só destes exemplos dá para perceber a imensidão de sensações e os porquês de cada uma.

Mas até que ponto queremos transportar um sentimento saudosista para uma realidade presente? Certamente que há coisas que devem ficar no passado, e que aconteceram mesmo para lá ficar... e não voltar. A saudade transforma-se em memória, a memória em sensação e a sensação em desejo. E o desejo consumir-nos-á até termos a oportunidade de matar a saudade. Já ouviste dizer que matar é crime, certo? Para quê matar a saudade, então? Teríamos de nos julgar depois e sofrer uma condenação. E se for de algo pelo qual já passámos vezes sem conta, não será melhor guardar um conjunto de saudades, mesmo sendo iguais? Se colocarmos no arquivo mental e separarmos de maneira organizada, decerto teremos gavetas vazias, quase vazias, meio cheias, a abarrotar, por organizar, em revisão, obsoletas, em reciclagem.

Guardamos a saudade, então. Invocamo-la quando acharmos necessário. Mas temos de ponderar o tempo que poderemos gastar com ela. O consumo excessivo pode ter efeitos secundários indesejados...

Definitivamente... já tinha saudades* disto.
*[Porra!... Saudade!]

1 comentário:

  1. Eu acho que tanto a saudade pode invocar memórias, como o inverso.

    Tanto podes ter saudade de um local e depois te lembrares com quem lá estiveste, ou pode bater a saudade da pessoa e depois vir uma corrente de momentos e locais relacionados com essa pessoa.

    E também não acho que seja necessariamente verdade que a saudade de um sítio esteja obrigatoriamente ligada às pessoas que estiveram connosco.

    Eu tenho saudade de um ponto da Ericeira em que estive à noite, a sentir a maresia na tromba.
    Eram 3 da manhã e estava um frio do catano, mesmo assim gostava de lá voltar, mesmo que fossem nas mesmas circunstâncias.

    Teria o mesmo gosto em lá ir, fosse com as mesmas pessoas, com outras ou sozinha, porque foi um momento do qual gostei muito.

    :)

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