segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Teoria do Espelho

Lembremo-nos por instantes daquela história que nos contaram, quando éramos pequeninos, sobre uma desgraçada que nasceu em tempos de crise e cuja madrasta teve de meter fora de casa porque, para além de analfabeta, mal limpava, mal lavava, não arrumava nada e passava os dias fechada no quarto a cantar feita maluca para os animais. Tal foi a desgraça, que teve de ir viver para uma barraca e fazer tudo o que não fazia... para sete homens! Toma lá, para não seres preguiçosa! Branca de Neve, o seu nome mais utilizado nas várias adaptações, ficou famoso por todo o mundo. Na realidade, para quem não sabe, o verdadeiro nome desta "princesa do não-faz-nada" era Lilli Hoffman, e a sua madrasta chamava-se Claudia. Quem quiser, que se dê ao trabalho de ver o filme baseado na obra original dos irmãos Grimm. Garanto que vale a pena. [E se só o meu relato não chega... Uff!... A actriz que faz de "bruxa" é a Sigourney Weaver. Chega? Pronto.] Mas em todas as adaptações, foram sempre evidenciadas as personagens centrais, sendo elas a princesa, a bruxa e os sete anões. No entanto, o verdadeiro personagem principal desta história é, sem dúvida, o espelho. O espelho mágico. Aquele que, na realidade, não falava, não opinava, não mandava postas de pescada "Ahh, a outra é mais popozuda do que tu! Eheheh!" nem sequer reflectia algo diferente do que o reflexo puro e duro da idade... (medo!...). O espelho não era mais do que um... espelho. Afinal a sua proprietária tinha uma espécie de demência, uma dupla personalidade, aliada a uma história trágica de infertilidade ou incapacidade para gerar um ser humano que sobrevivesse. Falava com o espelho, mas na realidade falava consigo própria. Lá tinha uns dotes de bruxaria, mas pouco mais do que isso.

Muitas são as teorias sobre os espelhos, tanto pelo que eles guardam, pelo que vemos neles, os sustos que nos pregam, a boa ou má disposição em que nos põem. Conforme a iluminação. Sim! Aquilo não era uma ruga, era uma sombra do... do armário! E claro que não era uma borbulha. O vidro estava salpicado! Com uma coisa vermelha! Pois, era um mosquito kamikaze. Enfim. Qual será a importância que damos àquilo que vemos num espelho? Toda, claro. Como é que nos conhecemos fisicamente se não nos olharmos ao espelho? Temos de estar preparados para saber o que as outras pessoas vão dizer de nós. Não queremos apanhar nenhuma surpresa do género "O que é que te aconteceu à cara?", e por isso olhamos sempre para o nosso próprio reflexo, a nossa própria fronha, antes de olhar para a fronha dos outros. Seja de que maneira for, temos de estar sempre melhor. Melhor do que nós próprios.

Mas já lá vai o tempo em que só se olhava para a cara. Antigamente, o resto do corpo estava completamente coberto por roupa, em que esta também desempenhava um papel muito importante. Hoje, a escassez de matéria prima para a confecção faz com que as pessoas usem cada vez menos pedaços de tecido e paguem até mais. E eis que os contornos do corpo humano começaram a ficar à vista. Já não é só a cara que importa cuidar. Agora, antes de sair de casa, toda a gente tem de fazer a vistoria completa. Ombros, pernas, braços, pés, unhas, etc. Como se isto fosse algo de muito importante. Será? Talvez. O facto é que se as tuas unhas não forem perfeitas, não vais ser nada na vida!

Mas quem é que foi buscar estas ideias? Desde quando é que um corpo define uma personalidade? Desde quando é que aquela roupa tem de condizer com o tom de pele? E quais são os critérios de combinação? E... agora o cerne da questão... desde quando é que temos de ser todos iguais?!

A sociedade anda a impingir a todas as pessoas uma "necessidade" de se manterem na moda, de usarem aquilo que é "bom", só porque alguém disse que era. Qualquer dia, vestimos todos roupa da mesma côr, sinal de que pertencemos a uma sociedade digna e respeitosa. Usamos os mesmos direitos, usamos as mesmas roupas. Mas, ainda bem, conseguimos ter muita variedade em termos de vestuário. Até se vai buscar coisas velhas ao armário, que toda a gente acha original nos dias que correm e é cool. O problema que estou a apresentar não será o da roupa, mas sim o que ela já não esconde.

Olhemos para a "evolução". Hoje, gaja que é gaja anda de mini-saia, mostra tudo o que pode e o que não deve, decotes provocantes, alta produção e tacões nos quais nem consegue andar. E gajo que é gajo... tem de mostrar o pernão musculado, os peitorais inchados, as unhas limadas... hã... o sovaco todo bem depilado... hein?... a sobrancelha arranjada... Pronto. Descambou.

Nas gajas, é compreensível um rol de alterações, modificações pequenas ou abusadas, dependendo da situação. Elas são tramadas, principalmente se vão ter por perto outras da mesma "espécie". Não chega só sentirem-se confortáveis, se é que assim se sentem. Ora, há séculos atrás nem respiravam para conseguir ter as mamas firmes e bem levantadas, apertando os espartilhos até lhes partir as costelas. [Lendo estas últimas palavras, com um tom possante, quase que dá para sentir a tal falta de ar...]
Elas pintam-se, por vezes, mais do que um palhaço de circo, banham-se naquele perfume ranhoso e que custou balúrdios, calçam os tacões de 20cm para, enquanto que andam, treinarem um novo género de dança em que as pernas abanam muito; uma espécie de kuduro, mas em que a parte do corpo que mais abana são as pernas.
Exagero? Não. Na maior parte das vezes, elas estão super atraentes, sabem o que vestir e o que calçar, e a dança que fazem na rua é sensual o suficiente para não pagarem bebidas o resto da noite.

Mas se vamos falar de exagero, temos de olhar para o sexo oposto. Os gajos. Afinal onde é que isto vai parar? De onde é que vem agora esta moda? Será porque um futebolista famoso se assumiu como metrossexual? Será por aquelas revistas de fitness (?) estarem constantemente a mostrar na capa um gajo despido e com os abdominais perfeitos? Será por haver demasiadas séries de televisão sobre gladiadores?
De facto, as nossas televisões tendem a mostrar cada vez mais homens com aspecto de culturistas. E quanto mais largura tiverem, melhor. Mas não vamos confundir o culturismo, associado ao desporto, com uma moda. É impossível que a maior parte das mulheres goste de homens com esta estrutura. Acredito que apreciem; mas ter um "armário" a caminhar ao lado há-de cansar, mais cedo ou mais tarde. Se bem que muitos deles ficam de tal forma que mal se mexem. Nos últimos anos, assistiu-se a um boom de aberturas de ginásios por todo o lado, dada a elevada procura, tanto por adolescentes como por maduros. O objectivo seria sempre por questões de saúde, para manter a forma, para ganhar massa muscular, para perder peso, etc. É sempre bom fazer algum exercício físico, queimar toxinas, libertar o stress. Existem inúmeras desculpas para ir para um ginásio.

As semanas vão passando e começam a notar-se algumas... diferenças. Não, não estou a falar do músculo mais desenvolvido ou o pneu que desapareceu. Isso são coisas que já eram de prever; aliás, é normal. Vai-se para um ginásio e é óbvio (!) que se fica logo assim passados uns tempos. Mas as diferenças a que eu me referia têm mais a ver com... comportamentos. Sim, alterações nos hábitos. De repente, um dito homem aparece em casa, despe-se para a esposa e pergunta com um sorriso malandro "Gostas?". Tal é a reacção dela, que já tinha ouvido as amigas falar sobre o que os maridos delas tinham feito... e não é que ele fez igual?! A gaja esboça um sorriso de orelha a orelha, junta as mãos, espantada e rejubila "Aahh!... Fizeste a depilação às pernas!", ao mesmo tempo que pensa "C*brão, quando eu te disse para fazeres, disseste que era coisa de gays!". Mas fica toda contente, porque agora tem um armário da mesma marca que o das amigas! E claro, embora ele não lhe tenha dado ouvidos no momento certo, com certeza os "amigos" do ginásio o convenceram a fazê-lo, porque com toda a certeza, a mulher ia gostar. E todos ficam contentes.

Passados mais uns dias (não muitos), está o mesmo casal a preparar-se para ir para a cama, envolvendo-se numa tórrida sessão de sexo; e então agora que ela tem um gladiador em casa! E mortinha por que ele lhe mate com a sua espada, puxa a roupa interior e depara-se com outra alteração. Novamente, ele pergunta com um sorriso ainda mais malandro "Gostas?". E ela reage exactamente da mesma maneira "Aahh!... Fizeste a depilação ao Zézinho!". Nisto, lembra-se do conselho que as amigas deram se tal acontecesse: elogiar o "acréscimo" provocado por essa acção, dizendo "AAH!! Parece que 'tá maior!!", para ele ficar ainda mais excitado por pensar que o seu mais-que-tudo aumentou de tamanho só porque lhe retirou os pêlos. De facto, visto de cima, parece-lhe maior. E para além disso, mudou de nome. Já não se chama Zézinho. Agora é o Thor. (Ela bem queria que fosse Ronaldo, mas ele achou melhor usar um nome de uma personagem de ficção).

E em poucos dias, já não há pêlo debaixo dos braços, nos braços, no peito, nas pernas, onde quer que seja. Apenas ficou o cabelo e a barba, caso já a tivesse. Se não, passa a ter, para não perder o ar de macho. Já é ela que arranja as sobrancelhas dele, que lima as unhas (dos pés, também) e que dá uma vista de olhos para ver se não ficou nada mal feito na esteticista. E se o orçamento apertar, faz-se tudo em casa. Passa a mulher a ter uma nova tarefa, para além das habituais. E agora já é ele que se apruma mais do que ela. Ele tem melhor aspecto. As pernas dele brilham mais do que as dela. O olhar dele é mais atraente. Até cheira melhor. E a roçar o exagero, num certo dia, quando ela chega a casa, encontra-o no sofá com um amigo, supostamente do ginásio, porque é igual na estatura, os dois sem roupa. Ora, claro que estão a discutir os exercícios que fizeram no dia anterior. Tão homens que eles são! Já estão a combinar um fim-de-semana só de homens... nas montanhas... a acampar... (até lhe passa na cabeça que já tinha visto um filme parecido... não, deve estar a confundir).

Poupem-me!! Ainda há uns tempos ouvi, em directo na televisão, a Marisa Cruz a dizer, não sei a que propósito, exactamente estas palavras: "Homem que é homem não faz a depilação nas pernas". E vamos lá a ver, eu até percebi o que ela quis dizer com aquilo. Não é preciso levar tanto à letra, embora. Um homem não deixa de ser homem por se cuidar, por querer ter um "coiso" maior, por ser mais higiénico, para poder engatar mais gajas, enfim, qualquer que seja a desculpa. Mas não é preciso exagerar.

Não há muito tempo atrás também, estava eu numa esplanada de um centro comercial e deparo-me com uma cena [provavelmente a que me inspirou para este post]. Ao abrirem a porta para a zona exterior, saem de dentro do centro 3 homens, todos eles com o seu aspecto de durões, grandes corpos, músculos definidos, pele bronzeada, sobrancelhas arranjadas ao pormenor, a pele da cara tonificada e brilhante, sem um único pêlo nos braços ou nas pernas ou nas axilas, embora o mais durão dos 3 mantivesse a sua barba; intitulei-o logo de "o dominador". Mas os pormenores não ficam por aqui. Sim, a pior parte ainda vem aí. E, obviamente, foi isto que me chamou a atenção, porque o resto vê-se por aí em todo o lado. Foi a roupa. Por mais bom gosto ou mau gosto que se tenha, ver homens como aqueles, que se cuidam por qualquer que seja o motivo, aprumam-se para atingirem os seus objectivos pessoais, sacrificam-se durante horas para atingirem o estado igual ao que viram na revista ou no filme, na maneira em como estavam vestidos... foi de saltar automaticamente no cérebro a pergunta "O que é aquilo?".

Os 3 cenários.
Cenário 1 (o dominador): t-shirt preta, ténis pretos, calções largos ao xadrez.
Cenário 2 (o pavão): t-shirt verde fluorescente, (não reparei nos ténis), calções curtos azuis claros
Cenário 3 (o canário): t-shirt de alças amarela, ténis azul-bébé, calções curtos côr-de-rosa...

Vamos convir que, e sublinho, sou a favor de que toda a gente faz o que quiser e como bem entender, sem nunca afectar os outros. Não acredito nem sigo as modas. Não sou influenciável pelos hábitos que as outras pessoas demonstram. Respeito a liberdade que cada um tem para se exibir da maneira que achar mais conveniente para si. Mas será que ando a ver mal? Serei só eu a achar isto um exagero? Os homens andam mesmo a trocar de papel com as mulheres? De tal forma, que chegam a este ponto?

Só pode ter sido o Espelho Mágico! Aquele maroto!

Definitivamente... temos de controlar o tempo que passamos em frente ao espelho, pois ao pensar que estamos a moldar a nossa personalidade, poderemos estar a perdê-la.

2 comentários:

  1. Gostei muito destes teus reparos, estou aliviada em ver que há pelo menos mais uma pessoa que pensa como eu... :D

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