terça-feira, 6 de agosto de 2013

Teoria do Antes e do Depois

Quantas vezes já disseste para ti próprio/a "No meu tempo, não era nada assim..."? Eu já sinto que está na altura de mandar estampar uma t-shirt com esta frase em letras bem grandes. Para toda a gente ver. Para todos sentirem o que eu sinto. Para todos me sorrirem e me darem aquela razão (óbvia!) dos costumes e hábitos que teimam em perdurar nos dias de hoje. Para, de repente, uma pequena caminhada se transformar numa mega-manifestação em direcção à Assembleia da República ou ao Palácio de Belém. Toda a gente me acompanhava; não sei bem como, mas as t-shirts multiplicavam-se em minutos, graças às reprografias que existissem no caminho, se é que ainda as há. E toda a gente, em vez de ir trabalhar, suplicava pelos bons velhos tempos, pela educação do antigamente, pelos preços do antigamente (20 euros cada t-shirt estampada, no mínimo!... sem IVA!). E uma repórter de televisão apressava-se a entrevistar em directo um dos manifestantes.

"Então diga lá: porque é que está aqui hoje?"
Ao que respondia a senhora "escolhida ao acaso", com os óculos pendurados, os cabelos pretos encaracolados e o vestido às florzinhas cor-de-rosa:
"Olhe menina, ê tô aqui porqu' isto tá muito mále! Muito mále!".

Como a resposta não era convincente, a repórter escolhia outro manifestante ao acaso. Porque não o senhor de bigode, com o barrete na cabeça e com a cara vermelha de raiva (aka "tintol")?
"E o senhor? Porque está aqui?", insistia a jovem repórter.
"Hein?", expressava o cidadão.
De novo, ia a menina a repetir o "porque é que..." e já ele gritava:
"Eh pah! Isto nã pode sêre! Estx gajx são uns «ppiiiiiiiii»! [som editado posteriormente para o telejornal das 20h] Nã têêêm vergôôônha!".
Ao mesmo tempo, ainda salta um perdigoto para a lente da câmara.

E para evitar novo escândalo (assim como mais uma queixa na Entidade Reguladora para a Comunicação Social contra o povo... cometida pelo próprio), a repórter vira-se então para uma jovem bonita, com tudo no lugar, a postura de que vai dar a resposta que "os portugueses" querem, pois não só poderia ser uma miss, como as calças compradas na loja do chinês transpiram o cheiro do desemprego, da "miséria", embora os seus cabelos loiros e bem penteados transmitam a imagem correcta de uma recém-licenciada desejosa de trabalhar, sabe-se lá a fazer o quê, desde que a ganhar mais do que 1500 euros por mês. Impressionada que fica a repórter com esta rapariga, pois ela já sabia qual era a pergunta, e assim que o microfone lhe chega à boca desempenha a sua tarefa com bastante rigor (sem respirar).
"Eu estou aqui porque sou uma cidadã deste país...! E andei a estudáre! E estou sem emprego! Tenho 22 anos e vivo na casa dos meus pais! Somos um país livre e temos de lutar pelos nossos direitos porque os nossos direitos são as nossas... [hesita] ... são as nossas... os nossos deveres de lutar...! E por isso temos todos juntos de nos juntar e lutar pelos nossos direitos..."
A repórter, com pouco tempo de antena, puxa o microfone para trás mas é novamente sugada pela mão da jovem, como se esta dissesse "Não me tires isso da boca, que eu tou a gostar". E a menina continua:
"... e por isso estamos aqui para defender o que é nosso e os nossos direitos!"
E já que a rapariguita estava com a boca no sítio certo, foi a melhor das respostas até ao momento e a régie gritava pelo comunicador "Despacha a gaja! Passa para o estúdio!", a repórter, atrevida, atira o último cartucho e arrisca:
"Acha que com uma mudança de políticas em todos os sectores Portugal terá boas oportunidades no relançamento da economia ou caíremos novamente em risco de contrariar a nossa Constituição?"
A loirita hesita durante 2 segundos e prontamente responde:
"Isto tá muito mále! Ist' assim não pode sêre! Estes... senhores não valem nádaaaa!"
E o povo grita, ficando a repórter inaudível.

OK, vamos lá cair na realidade. Nada disto aconteceria. Estou a referir-me à manifestação em si. Decerto seria designada "A Manifestação do Meu Tempo". Se eu tivesse umas mamocas bem grandes, a parte da frase "no meu tempo" ficaria bem... estampada. Daí... Pronto.

Onde eu quero chegar é: do que é que sentimos saudades afinal? Como era antes? E no estado em que as coisas andam, como será depois?

Olhamos com desdém para os jovenzinhos (sub-pós-pré-adolescentes) porque andam com os telemóveis a ouvir música sem fones nos transportes públicos, na sua totalidade sem qualidade nenhuma, porque dizem asneiras como quem diz "Bom dia", tratam-se uns aos outros com nomes obscenos, cumprimentam-se com gestos que jamais viremos a compreender o que significam (aposto que nem eles sabem!), falam [demasiado] abertamente sobre a vida sexual que pensam que têm e gastam o dinheiro todo que os pais lhes dão, estando nós a sofrer para pagar contas. Será inveja? Será vontade de estarmos no lugar deles?

Todos nós tivémos a nossa fase adolescente em que vivemos coisas que decerto hoje em dia não se vivem. Mas da mesma forma, os nossos antepassados também passaram por algo idêntico. É por isso que nos fartámos de ouvir "Ai esta juventude!". E não percebíamos qual era o problema quando éramos criticados pelos nossos actos. Era tão natural. As coisas eram assim. Os tempos eram outros. Não podíamos viver como eles viviam no passado. Mas que raio! "Porque é que eu não posso fazer o que eu quiser?!"

Sabendo o que sei hoje, teria resposta pronta: "Porque 'tás a fazer figura de otário/a."

E se olharmos bem com atenção, não é que... Aahh!... Fazem mesmo figura de otários. Mas para quê a preocupação? Quando éramos novos também fizémos tanta porcaria. Também nos cumprimentávamos de maneiras alienígenas, só porque era cool, também chamávamos nomes obscenos uns aos outros (e ainda hoje!) e também falamos da vida sexual, mas neste caso através de metáforas. Aqui está a grande diferença. Nós ainda sabemos disfarçar.

A seguir, serão os jovens de hoje a pensar como nós. E nós, por dentro, continuaremos a rir deles. Vamos sempre achar que sabemos mais do que eles. Vamos sempre achar que sabemos mais do que toda a gente. Vamos criticar a forma como os outros falam entre si, como se cumprimentam, como falam da sua vida desbocadamente.

Vamos voltar a ser como éramos antes...

E depois? "Depois... quero lá saber!"
Pronto, já lá chegámos!

Definitivamente... a manifestação teria de ocorrer frente ao Ministério da Educação, pois é o principal responsável pela falta de resposta directa às perguntas inteligentes dos jornalistas de televisão!

1 comentário:

  1. Pois...eu ainda ontem passei por uma situação semelhante, quando falava com um rapaz de 19 anos, sobre roupa da Bershka, e lhe disse "isso é pa malta da vossa idade"...

    Sendo que o assunto era roupa da Bershka, que nunca me agradou, nem quando eu tinha 19, penso que a minha exclamação não é assim tão grave...

    No entanto não nego que fiquei maravilhada com a T-shirt dele que tinha a cara so PSY, e dizia "Keep calm and Gangnam style"...brutal!

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