quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Teoria do Orgasmo

O acto sexual já não é uma coisa que se faça só para efeitos de procriação. Acredito que sempre tenha sido feito com duas intenções, sendo que a segunda (embora a principal) é a busca do prazer. E enrola, e enrosca, e rebola, e vira, e contorna, e encosta uma bocadinho na almofada, e acende um cigarro, e volta à carga, e grita, e geme, e esperneia, e estica a perna por causa da cãibra, e massaja, e beija, e lambe, e mete, e tira, e mete, e tira, e faz, e acontece, e… e… e… explode. E acabou. Por uns momentos, talvez. Mais meia hora e repete-se, em alguns casos. Há quem faça todo este malabarismo só para atingir o clímax do final. A maior parte das pessoas, actualmente, não disfruta dos entretantos. Grande erro. Sexo que é sexo é bom desde a troca de olhares inicial ao apagar da luz até ao beijinho de consolação. Este beijinho pode ter vários significados:

“Gostei muito, mais uma vez. Só contigo é que isto funciona.”
“Adorei! Queres outra vez?”
“Que bom. Agora é melhor irmos embora antes que o teu marido chegue a casa.”
“Foi óptimo, mas aquela cotovelada na minha boca estragou o momento.”
“Vê-se mesmo que estavas a precisar. Dói-me tudo!”
“Espero ter sido o melhor de hoje.”
“Toma lá, porque não voltas a levar outro.”

Venha o diabo e escolha. O que é certo é que ambos procuram aquela sensação única. E se o ser humano não soubesse o quão boa é essa sensação não a procurava, não a praticava, e nem tão pouco pagaria por ela, em certos casos. Aquele final arrebatador que sinaliza o fim do momento, a hora de ir dormir (ou de voltar à vida normal).

Aplica-se, por vezes, um certo romantismo. Com toda a certeza, o sexo será muito melhor! Porque não um jantar à luz das velas? Entre conversas sobre o quão espectacular a outra pessoa é, o que ambos pensam sobre o compromisso, um copo de vinho para acompanhar a feijoada, uma troca de carícias com a mão direita, um sorriso e um piscar de olho, talvez até um toquezinho com o pé na perna um do outro, essas coisas todas. Depois o passeio até casa, de mão dada. Ao entrar, o tirar da roupa a mais, mas não demais. Colocar um som de fundo para acalmar o ambiente. Fechar as cortinas para evitar os olhares indesejados. Emborcar mais uns decilitros de vinho no copo para desinibir. Passar as carícias das mãos para os contornos da cara. Dar aquele beijo. Sim, aquele que diz “Já está! Agora não há volta a dar! Sexo garantido esta noite! Uhhuuu!”

E no meio dos beijos, ouve-se um ronronar. “Hein? Mas eu não tenho gato…” Oh! Que fofura, consegue ronronar como um gato. Ah… espera… afinal não é ron-ron… Subitamente, a sessão é interrompida. O que se pensava ser um felino, era na realidade um ataque de gases que já subiam pelo esófago. E antes que o gato se transformasse em leão na cara da outra pessoa, decidiu-se fazer uma pausa. E porque não? Claro que sim, o ambiente continua relaxado na mesma, a música está óptima, o sofá até é confortável e a noite ainda é uma criança. Na teoria da sedução, o tempo é coisa que não existe. O relógio pára. Mas o relógio biológico continua sempre a trabalhar, e neste caso teve mesmo de ser. Lá se separam por uns instantes, enquanto que um deles vai muito devagar para a casa de banho, pois os gases que se evitava sair por cima, insistiam agora em sair por baixo.

Ao chegar, desapertando a roupa e a resmungar sobre o “porquê agora?”, senta-se na sanita para libertar os seus pecados antes de dar a sua carne à alma caridosa que concordou aguardar no sofá. Mas tem de ser rápido, porque senão o CD chega ao fim, o vinho acaba-se e a paciência vai-se esgotando. Nada pode estragar um momento daqueles. Claro que o que se está a passar é algo natural e, portanto, mais do que compreensível. E no decorrer dos segundos, começa-se a martirizar por não ter escolhido outro prato. Tinha de ser a feijoada! Que mania que os tugas têm de comer do bom e do melhor! Depois dá nisto! Vão-se soltando alguns gases bébés para amortecer um possível som estridente; toma-se até atenção à música que está a tocar na sala para garantir que não está no fim! Qual é que seria a desculpa? “A canção é mesmo assim”? “É um efeito sonoro”? Mas vá, agora tem de sair, para não dar problemas depois. “Então?... Não sais?... Força! Argghhh!...” E insiste, como se estivesse literalmente a parir um animal de grande porte. Um boi adulto, por exemplo. De olhos já cerrados, trinca os lábios (como se isso fosse ter algum efeito). Nada ainda. Pára para respirar fundo, retoma o fôlego, enche o peito de ar, sustém a respiração e volta a forçar. O cérebro começa a assimilar que o erro não foi a feijoada, mas sim o ter comido a feijoada sem ter o estômago limpo. Isto não devia estar a acontecer agora… Ei! Vem aí! Vem aí! E… hhhmmm… Lá vai torpedo! E dá-se uma sensação de alívio. O peito desincha. O corpo relaxa instantaneamente. Valeu a pena…

Mas...

O inesperado acontece. Em micro-segundos, tão pouco que nem deu para olhar para cima e agradecer ao tecto da casa de banho, o torpedo vinga-se por ter saído antes do seu tempo e decide cair exactamente no centro da sanita (“PLOC!”), provocando um efeito bíblico de retorno: aquela água, gelada, eleva-se dos fundos e esguicha para os céus, como que um vulcão em erupção, acertando exactamente no portão de saída do torpedo. Imagina atirares um balde de água para a parte de trás de um carro e acertares apenas no buraco do tubo de escape. É tal e qual essa precisão! Não havia mais para onde a água pudesse ir; tinha de ser para ali! As mãos atiram-se para o lado, uma contra a parede e a outra para lado nenhum em específico, mas com o intuito de agarrar alguma coisa. A espinha dorsal endireita-se, fazendo com que a cabeça se eleve e dê um coice para trás. As pernas dividem-se, uma para nordeste e outra para sudoeste, fazendo quase perder o equilíbrio (não fosse a mão já estar na parede!). O corpo dispara uma dose de adrenalina pelo sangue à velocidade da luz, provocando um calafrio incontrolável, enchendo de novo o peito de ar, abrindo as cordas vocais e soltando um “AAHH!”. A este fenómeno dá-se o nome de… orgasmo. Sim, isso mesmo. É um verdadeiro orgasmo.

Com muito esforço, o som é rapidamente interrompido. Está uma pessoa na sala! Mas não deve ter ouvido… Ai não que não ouviu. Do lado de fora, a reacção pode ser variada, dependendo de quem foi à casa de banho e quem ficou à espera. Se foi ele, ela levanta as sobrancelhas, sentada no sofá a ouvir a música, balançando o copo de vinho, abre a boca, arregala os olhos e pensa “Olha-me aquele gajo, a masturbar-se! Sacana!”. Se, na situação oposta, foi ela, ele impaciente de um lado para o outro na sala, de mãos nos bolsos, o copo de vinho em cima da mesa, solta entre dentes um despreocupado “O que é que foi aquilo?”. E rapidamente se esquece.

O engraçado nesta constatação (e não comparação) é que o efeito de alívio vem antes… e depois. É a única diferença. Enquanto que num orgasmo politicamente correcto, o alívio só vem depois. Mas conclui-se que nem tudo é mau. Atinge-se mais do que um orgasmo na mesma noite! Graças ao Senhor Castanho. O garanhão que consegue dar prazer a quem menos espera. Livra-te dele quando a natureza to exigir… e poderás ter benefícios em troca. Orgasmos fresquinhos e sem grande esforço.

Definitivamente… este é o post mais nojento que já publiquei até agora.

2 comentários:

  1. Assim que falaste em feijoada, vi logo no que ia dar... XD

    A propósito...esse "orgasmo" tem um termo técnico...chama-se. "Efeito tchubum" e já há online técnicas para evitar isso :D

    ResponderEliminar