quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Teoria do Bicho

Imagina-te num mundo virtual. Daqueles em que tudo é feito e acontece à tua medida. E em que tudo o que não gostas é possível alterar, adaptar, modificar ao teu gosto. E até eliminar. Com o Facebook faz-se isso. Quem sabe se um dia não poderemos finalmente viver dentro de casulos, completamente imóveis, submersos numa "nhanha" colorida e com tomadas usb instaladas na cabeça, todos ligados em rede, mesmo ao género de vários filmes de ficção científica (que nos têm mostrado o quão errado é permitir tal coisa); apenas o nosso cérebro controlaria a situação (?). Não seria muito diferente do malfadado Facebook. Se convencermos o Sr. Zuckerberg a investir uns milhões nesta ideia, daqui a poucos anos não teremos de cozinhar, lavar a roupa, passar a ferro, aspirar a casa. E toda a nossa vida será a perfeição. Teremos também a possibilidade de "bloquear" as criaturas que não queremos incluídas na nossa sociedade. Individualmente, consoante o perfil de cada um. Ou seja, essas criaturas não existem para nós, mas continuam a existir para outros. Nós é que não as vemos... ou não as queremos ver. [Vamos dando uma espreitadela, de vez em quando, não é? Cof cof!]

É óbvio que jamais concordaria em viver num estado de "nhanha". Mas a opção de bloqueio é tentadora! Porque não? Vou na rua, vejo a criatura a quem coloquei uma "tag" por cima a dizer NÃO GOSTO DE TI, em poucos segundos clico no relógio de pulso, escolho a opção "seleccionar alvo", depois "marcar" e no fim "eliminar". E pronto. De repente, a criatura evapora-se no tempo e no espaço, como se tivesse sido raptada por extraterrestres (preferencialmente para inúmeras experiências com sondas enfiadas nos recônditos anais do corpo humano). Desta forma, seríamos seres completamente desprovidos de ódio, pois saberíamos canalizá-lo para o sítio certo, qualquer que ele fosse.

Constantemente, temos uma vontade de pensar que poderíamos não nos ter cruzado com esta ou aquela criatura, que acabou por nos trazer um desgosto, porque é feia e cheira mal, porque nos rouba nos impostos, porque nos mentiu, porque tem um telemóvel melhor do que o nosso, ou só simplesmente porque sim. Não é propriamente um ódio, é mais uma sensação de "vivia melhor se não soubesse da tua existência". Temos a capacidade de aprender a viver com os infortúnios do passado, mas de vez em quando isso dá muito trabalho.

Azar o nosso. Essas tecnologias ainda não são mais do que virtuais. Temos mesmo de levar com os bichos, quer queiramos quer não. Seja no trabalho, na vida social (sim, os amigos também fazem questão de nos lembrar da existência das criaturas), na rua ou onde menos esperarmos. E já que não tenho o relógio futurista com a aplicação Mata-O-Bicho, o que fazer quando de repente temos um encontro imediato?

Na rua, podemos atravessar para o outro lado, dependendo do cálculo de distâncias e do trânsito! Ou então pegamos no telemóvel muito depressa a fingir que estamos a atender uma chamada ou a ler uma mensagem. Com algum teatro, ainda gritamos para o aparelho "Estou?! Eh pah que saudades! Estava mesmo a pensar em ti!", adicionamos muito depressa "Sim, claro que pode ser hoje!" e se ainda quisermos deixar mais dúvidas no ar acrescentamos "Ah espera! Hoje já tenho um jantar importante!... Sim, sim, com esse/essa mesmo/a! Aahahah! [a mostrar bem os dentes todos]... Pois, parece que sim!... É, tou muito feliz!" Claro que tudo isto tem de ser rápido, pois o período de atenção do bicho pode ser muito curto. A espera para atravessar uma passadeira é o ideal. Melhor é dentro de um elevador (sim, com o bicho lá dentro). E se o quiseres ver a encarquilhar, nada melhor que fazer isto num transporte público. E podes ir adicionando mais argumento à encenação durante toda a viagem. Quando te fartares, acenas para a primeira pessoa que entrar na paragem seguinte, levantas-te e mudas de carruagem.

Mas será tudo isso necessário? Nem sempre. Por vezes, há bichos por quem até nutrimos (ainda) algum sentimento. Talvez seja pena... Não?... Bem, não interessa. O que eu quero dizer é que na maior parte das vezes o bicho tem um bichinho, ou seja, temos uma certa curiosidade em saber como é que está a correr a vida, se já casou, se já teve filhos, se continua a sair à noite, se tem dívidas às finanças, se ficou sem emprego, etc. Nestes casos há uma relutância. Um breve momento em que damos o braço a torcer e ficamos com a sensação de que o bicho nos vai dizer alguma coisa, mas sempre com o medo de sermos nós próprios ignorados. Imagina a situação do parágrafo anterior, mas invertida! Era o terror! A humilhação total. A vergonha. "Ai o que as pessoas vão achar de mim", pensamos nós; embora não o pensarmos se estivéssemos na situação contrária. Ora pois claro, as pessoas é que têm o dever de saber que o bicho não presta e que não é bom para a sociedade, mesmo não o conhecendo. É como a lei: não se pode alegar desconhecimento.

E então aguardamos pela reacção instantânea assim que os olhos se cruzam. A primeira coisa que acontece é um movimento físico: o levantar das sobrancelhas. Este movimento é um sinal de imprevisibilidade, mas que esconde um "F*da-se! Tinhas de me aparecer à frente! Logo tu!". E a surpresa acontece. Quer o bicho nos estenda a mão, nos toque no braço, nos fale muito bem ["Hipócrita!", pensamos nós]. E daqui partimos para inúmeras hipóteses.

Podemos concluir que mais valia não ter parado, pois afinal o bicho tornou-se um monstro ainda pior. Podemos concluir, passados alguns meses, durante a missa e ao dizer o "Sim", que tomámos a melhor atitude, pois afinal o bicho éramos nós.

As experiências de vida sobre as inter-relações com monstros, bichos ou pequeninos insectos variam, e com elas vamos aprendendo sobre nós próprios. Aos poucos vamo-nos vendo pela perspectiva dos outros. E assim como nós julgamos, também somos julgados. E assim como nos enganamos sobre alguém, também os outros se enganam acerca de nós. Excepto os bichos, que passam toda a vida enganados! Mas podemos sempre vir a ser melhor... juntos ou afastados. A presença física pode não existir, mas a memória vai lá estar sempre. Quer aprendamos com isso ou não, leva o seu tempo. No fundo, precisamos de um equilíbrio na sociedade: pessoas de quem gostar e pessoas para nutrir aquele ódiozinho de morte. E o que fazer quando nos aparecem à frente? Eterno dilema. Muito para pensar em tão poucos segundos.

Definitivamente... quero um relógio daqueles!

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